Lula e Trump se reúnem nos EUA em meio a tensões
Analise dos impactos geopolíticos do encontro e a crise energética global.
O presidente Lula viaja na próxima quarta-feira (6) para um encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A reunião deve acontecer na quinta-feira (7) e é considerada importante por ser mais um elemento na direção de acalmar as relações diplomáticas após as recentes rusgas entre os países.
No entanto, para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) Gilberto Maringoni, o encontro de agora parece ter sido combinado “de última hora”. Ele considera temerário que a reunião esteja acontecendo em um momento em que a empresa Serra Verde vendeu as operações de terras raras para a USA Rare Earth (Usar).
“Eu tenho receio de que essa viagem tenha sido uma espécie de coroamento de uma série de acontecimentos nas últimas semanas envolvendo essa questão das terras raras. É um tipo de acordo que não beneficia em nada o Brasil, porque essas terras vão ser exportadas pelos Estados Unidos. O CEO dessa empresa americana já disse que esse material vai ser totalmente exportado, não vai ficar nada aqui no Brasil e é algo tão estratégico quanto o petróleo. Eu tenho receio de que isso seja o coroamento de algo que se arrasta desde o ano passado, que é a política de tarifas”, pontua.
O internacionalista avalia que o presidente Lula também precisa se posicionar de maneira mais firme com relação às diversas ações dos Estados Unidos, não se limitando a criticar Trump por provocar guerras.
“O Brasil não tomou nenhuma medida diplomática mais forte, não enviou nenhum navio petroleiro a Cuba, não tem se colocado de maneira mais altiva perante Israel, ao contrário”, afirma.
Diante do cenário, Maringoni acredita que a agenda parece algo que já vinha sendo acordado desde o segundo semestre do ano passado.
“Eu acho que é muito mais um freio de arrumação que eles estavam combinando desde o segundo semestre do ano passado, após aquele primeiro encontro na Ásia, de fazer uma conversação só os dois numa situação mais tranquila em Washington”, lembra.
Por outro lado, o analista considera que essa também pode ser uma oportunidade para que Lula deixe claro que não permitirá ingerência estadunidense nas eleições brasileiras.
Colapso global
Gilberto Maringoni também comenta as novas movimentações no Estreito de Ormuz, desde que o presidente russo Vladimir Putin disse a Trump que a continuidade do conflito com o Irã vai gerar consequências ainda mais drásticas à economia global.
“O que se diz é que mais um mês e meio de conflito pode levar o barril a US$ 150 o barril. E sabemos que, subindo o petróleo, sobem os seus derivados, em especial diesel e querosene. O diesel que movimenta caminhões, locomotivas. O querosene, que é o combustível principal da aviação. Você tem um encarecimento de outros produtos que o Irã exporta também, que são fertilizantes, em especial ureia. E aí você passa a ter um encarecimento na produção e transporte de alimentos”, pontua.
O professor destaca também que é importante lembrar que o agente provocador dessa guerra foi o governo Donald Trump.
“A guerra já adquire um alcance mundial não pelas bombas e tiros, mas pelo que ela expressa de desequilíbrio econômico. É algo muito sério e a gente tem que ter em mente que, até o dia 28 de fevereiro, o Estreito de Ormuz estava aberto. O Irã, numa ação defensiva, fechou o estreito. Então, é muito sério o que os Estados Unidos estão fazendo com o mundo”, critica.
Com relação às ameaças que Trump tem feito a Cuba, em meio ao processo de asfixia energética imposta à ilha, Maringoni avalia que não é impossível imaginar que os EUA possam realizar uma intervenção contra o governo Diaz-Canel.
“Depois do que eles fizeram na Venezuela, são capazes de tudo, de fazer um sequestro desse tipo. Eu acho que a reação cubana vai ser distinta, bem distinta da Venezuela. O serviço de segurança cubano é muito mais disciplinado do que o venezuelano. Agora, a desproporção de forças é absurda”, pondera.
Fonte: Brasil de Fato
