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Acusações contra Raúl Castro elevam tensão entre EUA e Cuba

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Joana Salém avalia que últimos acontecimentos ensaiam uma possível repetição do roteiro realizado na Venezuela

Depois que os Estados Unidos criaram uma acusação contra o ex-presidente de Cuba e líder histórico da Revolução Cubana Raúl Castro, o tensionamento do país contra a ilha atingiu um patamar alarmante. O governo de Donald Trump tem intensificado uma série de sanções à ilha, em um processo que tem sido chamado de asfixia energética, que gerou uma resposta de solidariedade ao povo cubano, vinda de países como México e Rússia.

Cuba convive há décadas com o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e, mais recentemente, houve um agravamento dessas sanções, com escalada das ameaças de Trump à ilha.

A acusação contra Castro diz respeito a um episódio ocorrido em 24 de fevereiro de 1996, quando ele era ministro da Defesa do país e duas aeronaves ligadas ao movimento Irmãos ao Resgate foram abatidas após invadirem sucessivas vezes o espaço aéreo cubano. À época, o governo cubano fez vários alertas ao governo dos Estados Unidos, sem qualquer atitude do governo estadunidense.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a historiadora latino-americanista Joana Salém avalia que as ações de Trump contra Cuba formam um roteiro muito semelhante ao que aconteceu na Venezuela, que culminou com o ataque em 3 de janeiro e sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores.

“Com certeza é um roteiro muito parecido com o que aconteceu na Venezuela. E eu acho que é bom que a gente conheça um pouco o que aconteceu nesse episódio ao qual se refere a acusação contra Raúl Castro. Por mais que saibamos que é uma acusação plantada para se criar um clima e um roteiro de invasão, um roteiro de golpe de Estado imperialista em Cuba, é importante entender o que aconteceu em 1996″, pontua.

“Foi simplesmente uma autodefesa. Ele era a autoridade máxima militar do país. Só para a gente entender que organização é essa: foi criada em 1991 por um sujeito chamado Rosset Bassuto, assumidamente treinado pela CIA, que tinha participado de diversos ataques violentos contra Cuba. Depois ele participou de um ataque terrorista contra um motel e ele mesmo usa a palavra terrorista para se definir. Essa organização fazia parte de um complexo de organizações terroristas nos anos 1990 e que fizeram vários atentados contra Cuba. É evidente que uma invasão ao espaço aéreo, nesse contexto, não era inocente”, explica Salém.

A historiadora analisa que o movimento de acusação contra Raúl Castro, somado às declarações recentes de Trump que aumentam o tensionamento contra Cuba e o movimento de embarcações militares no mar do Caribe, inclusive com a chegada de um porta-aviões, representam uma pretensão real de ataque contra a ilha.

“Não é uma movimentação cenográfica. São muitos elementos materiais que indicam que não se trata de bravata ou ameaça retórica, mas de uma preparação política, ideológica, militar de ataque. O que eu acho mais desesperador é que Cuba não tem condições técnicas de resistir. A maior fortaleza da Revolução Cubana é a mobilização popular, mas o que é isso diante de uma invasão estrangeira terrestre? Ainda mais em uma situação como a que Cuba vive de privação de energia, de importação de alimentos, dificuldade de preservação de alimentos em geladeira, do básico”, explicou.

“É um possível ato de covardia extrema que está prestes a acontecer. Se Trump cometer essa invasão, vai ser um banho de sangue”, completa Joana Salém.

Para ela, Trump só não invadiu Cuba porque ainda está fazendo o cálculo político dessa ação. “Tem gente que até vai aplaudir uma política genocida, mas há setores que vão discordar, até setores de apoiadores que não necessariamente vão se alinhar”, considera.

Salém também frisa o caráter de unificação do povo cubano, forjado na ideia de revolução e luta coletiva.

“Se tem algo de que a população cubana não tem dúvida, é de sua soberania e autodeterminação. Então, nessas horas, o povo cubano se unifica e tem alta capacidade de resistência. Mas não há alta capacidade de resistência que consiga fazer frente ao exército mais poderoso do mundo”, lamenta.

Fonte: Agenda Brasil

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