Polícia Federal indica interferência de Ibaneis Rocha na tentativa de compra do Banco Master pelo BRB
Relatório indica que decisões estratégicas do BRB foram submetidas ao ex-governador antes da tentativa de aquisição.
A Polícia Federal (PF) aponta que o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) teve participação direta nas articulações para a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). Em relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 28 de setembro, no qual o sigilo foi retirado na sexta-feira (9), os investigadores afirmam que decisões estratégicas da instituição financeira pública eram submetidas previamente ao então governador.
O documento atribui a Ibaneis participação na autorização de valores para aumento de capital do BRB, na definição da estratégia de expansão do banco, na validação de decisões operacionais consideradas críticas e na articulação com agentes privados envolvidos no negócio. Entre os elementos analisados pela PF estão mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro, proprietário do Master, e Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB.
Em 25 de outubro de 2024, meses antes de o BRB anunciar a tentativa de aquisição do Master, Vorcaro e Paulo Henrique conversaram sobre a reestruturação do banco privado, a entrada de novos sócios e a estratégia de comunicação sobre a futura integração das instituições.
Na conversa, Vorcaro pede que Paulo Henrique compartilhe materiais sobre a reestruturação em andamento no Master. O objetivo, segundo a mensagem, seria ajudar a construir a narrativa sobre o negócio. O presidente do BRB responde que o material permitiria avaliar o desenho futuro do banco e preparar “a história toda que vamos contar em 3 meses da consolidação e do novo banco”.
Na sequência, Paulo Henrique faz referência a uma conversa que teria tido com o então governador no dia anterior. “Ontem na conversa com o Governador abordamos isso, mostramos que entrarão mais sócios e que isso vai ajudar os dois bancos a serem maiores e gerar mais resultados”, escreveu.

Reunião na Suíça
As mensagens recuperadas dos celulares de Vorcaro e Paulo Henrique também registram a articulação de uma reunião em Zurique, na Suíça, em janeiro de 2025. Em 20 de janeiro, Paulo Henrique escreveu ao banqueiro: “Amigo, quando vc vem a Zurique? O Governador pediu para marcarmos uma reunião”, em referência a Ibaneis.
O encontro ocorreu em 23 de janeiro e contou com a participação de Ibaneis, Paulo Henrique e Vorcaro. Uma quarta pessoa, identificada nas informações divulgadas sobre o relatório como Leonardo, também teria participado. A PF considera a reunião um dos elementos para reconstruir as tratativas entre os envolvidos na tentativa de aquisição do Master.
Três dias depois, em 26 de janeiro, Vorcaro encaminhou a Paulo Henrique uma pergunta do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, sobre uma possível sociedade entre o BRB e o Master. O então presidente do banco público respondeu: “Não ampliamos em nada o escopo das pessoas envolvidas no deal”. Em seguida, acrescentou: “Voltei na sexta da Suíça e não sei se o Governador ou Léo estiveram com alguém”.
Capitalização e tentativa de aquisição
A investigação também examina os movimentos de capitalização do BRB no período. Em 2024, o banco aprovou um aumento de capital de R$ 750 milhões. Em 2025, realizou outra capitalização, de R$ 294 milhões. A PF analisa esses movimentos no contexto da estratégia de expansão da instituição e das operações envolvendo ativos do Master.
O BRB anunciou a tentativa de compra do Banco Master em março de 2025. A proposta previa a aquisição de 49% das ações ordinárias, que dão direito a voto, e de 100% das ações preferenciais do banco privado. Em setembro daquele ano, o Banco Central rejeitou a operação.
As transações entre as duas instituições passaram a ser alvo de apuração por suspeitas de irregularidades. Informações divulgadas sobre a investigação da PF apontaram um possível prejuízo de R$ 17 bilhões e um fluxo de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master nos primeiros meses de 2025. Os valores são estimativas relacionadas à apuração, e não uma conclusão judicial definitiva.
Defesa nega interferência
Em nota encaminhada ao Brasil de Fato DF, a defesa de Ibaneis Rocha, representada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, contestou a interpretação da Polícia Federal e afirmou que o ex-governador não interferiu nas operações realizadas entre os bancos.
“A defesa do ex-Governador Ibaneis Rocha recebeu com tranquilidade o relatório da Polícia Federal divulgado na data de hoje, o qual corrobora, mais uma vez, aquilo que é apontado por esta defesa desde o início. Ibaneis Rocha não pressionou e tampouco teve qualquer ingerência nas operações realizadas pelo BRB. Como se constata da leitura do documento, o ex-presidente do banco detinha total autonomia para condução das negociações em nome da instituição financeira”, afirma a manifestação.
Os advogados também argumentam que Ibaneis não aparece como interlocutor direto nas mensagens analisadas e afirmam que o nome do ex-governador é citado quatro vezes no relatório. Para a defesa, essas referências não demonstram participação irregular na operação.
Fonte: Brasil de Fato
