Ghalibaf diz que acordo com EUA representa “derrota” americana
Mohammad Ghalibaf nega pressão e lembra morte mais de 3 mil iranianos, a maioria de mulheres e crianças
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, comparou o memorando de entendimento entre Irã e Estados Unidos a uma “declaração de derrota” estadunidense. Ghalibaf, que é o principal negociador de Teerã, tratou do tema nesta quarta-feira (24) em Baku, no Azerbaijão.
“O memorando de entendimento de Islamabad não foi resultado de pressão e coerção, mas produto da resistência e da força da corajosa nação iraniana. Um entendimento que demonstrou que o diálogo alcança resultados quando a outra parte se abstém de impor sua vontade a uma nação civilizada e aceita nossos direitos”, afirmou Ghalibaf.
“Por essa razão, o memorando de Islamabad se transformou em uma declaração de derrota dos EUA”, pontuou.
A autoridade iraniana também chamou os ataques de Israel e dos EUA ao país persa, iniciados no último dia 28 de fevereiro, de “ato criminoso”. Ghalibaf lembrou a morte do aiatolá Ali Khamenei e de mais de 3 mil iranianos. A maioria das vítimas era composta por mulheres e crianças.
Os custos para Washington e Tel Aviv, porém, têm sido altos. Segundo Ghalibaf, “a nação iraniana mostrou que a era de impor a própria vontade às nações independentes chegou ao fim”.
A guerra seria um esforço coordenado para alterar o equilíbrio estratégico da região, segundo o parlamentar iraniano. Para ele, o futuro da região deve estar baseado “não na confrontação, mas na interação; não na eliminação, mas na coexistência”.
Acordo está sendo negociado
Washington e Teerã concordaram em utilizar o prazo de 60 dias para chegar a um acerto mais amplo. O período foi estabelecido na esteira do anúncio do memorando de entendimento. O documento, entre outros pontos, determina que os EUA suspendam o bloqueio naval do Irã e criem um programa de reconstrução e desenvolvimento econômico iraniano, com financiamento mínimo de US$ 300 bilhões.
Além disso, o acordo prevê o encerramento das sanções contra o Irã, incluindo as que constam no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), assim como a liberação dos ativos e fundos iranianos congelados.
Do ponto de vista das obrigações de Teerã, o acordo prevê a reabertura do Estreito de Ormuz. Ao lado de Omã e outros países do Golfo Pérsico, o Irã deve definir como será feita a administração do estreito no futuro.
Outro ponto de relevo é a vinculação do Irã ao compromisso de não produzir nem adquirir armas nucleares. As partes ainda devem tratar da diluição do urânio enriquecido, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Ainda não há definição sobre como os ativos iranianos congelados serão utilizados. O vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, sustenta que os recursos serviriam “para comprar soja americana, milho americano e trigo americano em benefício do povo iraniano”.
O embaixador iraniano na ONU, Ali Bahreini, rejeita a ideia. Para ele, “o Irã é o único país que decide o que fazer com seus ativos”.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Ricardo Leães, professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), avaliou que os termos do memorando “sinalizam uma vitória definitiva do Irã”. Leães ressaltou que Teerã “não cedeu em absolutamente nenhum ponto que considerava prioritário, e os Estados Unidos tiveram que ceder em tudo o que o governo persa pediu”.
Fonte: Brasil de Fato
