Empresas chinesas dominam mercado de drones no Brasil e buscam expansão
Tecnologia asiática responde por mais de noventa por cento dos equipamentos agrícolas registrados no país e avança em novas áreas
Os drones chineses já dominam o mercado agrícola brasileiro e começam a ampliar sua presença para outras atividades. A China é hoje a principal fabricante e exportadora mundial deste tipo de equipamento, enquanto empresas avançam em novas aplicações.
Para conhecer de perto essa indústria, o Brasil de Fato foi até um dos parques industriais de Ma’anshan, na província de Anhui, no leste da China, onde conversou com representantes de empresas que atuam em diferentes etapas desse setor. Entre elas estão a Anhui Hongjing UAV Technology, especializada na fabricação de drones, e a GEOVIS Zhiyuan, que desenvolve sistemas e soluções para sua utilização em inspeções urbanas, agricultura, logística, segurança e meio ambiente.
A visita permitiu observar uma das principais apostas chinesas: a chamada economia de baixa altitude, que busca ampliar o uso do espaço aéreo próximo ao solo. Em Anhui, essa estratégia aparece ligada tanto à produção dos equipamentos quanto à criação de serviços e aplicações para diferentes áreas.
A dimensão dessa indústria pode ser medida pela presença chinesa no Brasil. Um levantamento realizado a partir da base pública do Sistema de Aeronaves Não Tripuladas (SISANT), da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), identificou 13.224 drones agrícolas cadastrados no Brasil em agosto de 2026. Desse total, 83,9% eram da chinesa DJI e 9,1% da também chinesa XAG. Juntas, as duas empresas respondiam por cerca de 93% dos equipamentos registrados.
Os drones são utilizados no Brasil principalmente para pulverização e monitoramento de lavouras, mas começam também a ser empregados no transporte de produtos e insumos agrícolas. Segundo projeção divulgada pela empresa brasileira Xmobots, este mercado deve movimentar mais de R$ 2 bilhões em 2026, com a ativação de mais de 11 mil novas unidades ao longo do ano, alta de 38% em relação a 2025.
A presença chinesa no mercado brasileiro inclui grandes fabricantes e empresas menores, como a Anhui Hongjing. Seu presidente, Wang Minglong, afirmou em entrevista à reportagem que seus drones “foram utilizados principalmente para o transporte de produtos e insumos agrícolas”, como frutas e outros produtos.
Wang Minglong, presidente da Anhui Hongjing UAV Technology – Foto: Bruno Falci / Brasil de Fato
Um mercado que cresce no campo
Equipados com câmeras e sensores, os drones podem acompanhar o desenvolvimento das culturas, identificar áreas com problemas e realizar pulverizações localizadas. A tecnologia permite reduzir o tempo necessário para determinadas operações e alcançar áreas onde máquinas terrestres encontram dificuldades.
Ao mesmo tempo, a expansão exige regras para garantir a segurança das operações e o uso adequado dos equipamentos, especialmente quando são utilizados para aplicação de produtos agrícolas.
A escala chinesa pode ser observada também no número de equipamentos em operação no próprio país. No fim de 2025, a China tinha cerca de 3,29 milhões de drones registrados, que acumularam 45,3 milhões de horas de voo durante aquele ano.
linha de montagem da Anhui Hongjing UAV Technology
A economia de baixa altitude
A chamada economia de baixa altitude reúne atividades realizadas por drones, aeronaves leves e outros equipamentos, integrando fabricação, logística, serviços, infraestrutura e sistemas de controle. Segundo projeções da Administração de Aviação Civil da China, este mercado chegou a 1,5 trilhão de yuans em 2025 (cerca de R$ 1,16 trilhão) e deve superar 3,5 trilhões de yuans até 2035 (aproximadamente R$ 2,70 trilhões).
Os drones são uma das principais portas de entrada do mercado. Eles já integram sistemas de segurança pública, inspeção ambiental, agricultura, transporte e resposta a emergências.
A GEOVIS Zhiyuan faz parte do Grupo GEOVIS, fundado em 2006. Criada em 2021 para focar em informação geoespacial, drones e tecnologias relacionadas à economia de baixa altitude, atua em inspeção urbana, aplicações industriais e logística. Shi Qinglan, supervisora de operações da empresa, nos explica que os drones são utilizados por órgãos públicos:
“Nosso principal trabalho é realizar inspeções para a administração pública, utilizando um sistema desenvolvido por nós mesmos para executar inspeções de rotina. Atendemos diferentes órgãos governamentais, como os departamentos de recursos hídricos, segurança pública, polícia de trânsito e gestão urbana. Eles enviam suas demandas de inspeção por meio do nosso sistema, e nós somos responsáveis por realizar essas inspeções de forma regular.”
Uma das aplicações é a prevenção de incêndios florestais. A aeronave pode realizar inspeções regulares, identificar riscos e utilizar sistemas de alto-falantes para alertar pessoas em áreas determinadas.
Shi Qinglan, supervisora de operações da GEOVIS Zhiyuan – Foto: Bruno Falci / Brasil de Fato
Quando a inteligência artificial entra em cena
A capacidade de monitorar grandes áreas gera grandes volumes de imagens e informações. Para processar esses dados rapidamente, as empresas chinesas integram inteligência artificial aos sistemas de drones.
Segundo Shi, a IA, “como uma ferramenta que se desenvolve rapidamente, desempenha um papel muito importante quando integrada às inspeções realizadas por drones. Ela nos ajuda a filtrar rapidamente um grande volume de informações, localizar com precisão o local de um incidente e tornar muito mais ágil todo o processo de resposta”.
A combinação entre aeronaves, sensores e inteligência artificial amplia o alcance das operações. Para o Brasil, essa tecnologia pode ter aplicações em áreas extensas de floresta, rios, estradas e propriedades agrícolas, além de operações de emergência durante incêndios e enchentes.
Na GEOVIS Zhiyuan, a diversificação das aplicações é uma das características do negócio. Yu Ran, do Centro de Ecologia da empresa, trabalha com projetos ecológicos na China e no exterior e com a divulgação de experiências desenvolvidas pelo grupo, e explicou que a empresa já atua com projetos no Sudeste Asiático e iniciativas relacionadas à logística, inspeção ambiental e operações transfronteiriças.
Segundo Yu, os drones podem ser utilizados em uma série de atividades. “Combinados com inteligência artificial, podem detectar lixo em rios, despejos irregulares e outras anomalias ambientais”, exemplifica.
Os equipamentos também podem receber sensores para monitorar a qualidade do ar e identificar gases contaminantes. Outra possibilidade é transportar uma variedade de produtos. “Medicamentos, alimentos, documentos e outros suprimentos. Em situações de inundação ou outros desastres naturais, também podem apoiar as operações de resgate e a distribuição de ajuda de emergência.”
Yu Ran, Centro de Ecologia da GEOVIS Zhiyuan – Bruno Falci / Brasil de Fato
Uma indústria de milhares de empresas
A liderança chinesa não está concentrada apenas em algumas grandes companhias. Ao final de 2023, o país tinha mais de 2.300 empresas envolvidas no desenvolvimento de drones civis e mais de mil modelos produzidos em série. Essa escala industrial permite que diferentes fabricantes trabalhem em segmentos específicos.
A China reúne fabricantes de aeronaves, componentes eletrônicos, baterias, sensores e sistemas digitais. A integração entre esses setores permite reduzir custos e acelerar o desenvolvimento de novos equipamentos.
Wang Minglong contou que os equipamentos da Anhui Hongjing foram desenvolvidos para diferentes situações de risco. “Suas aplicações abrangem diversos setores da vida cotidiana, mas são especialmente importantes nas áreas de combate a incêndios, emergências e operações de resgate.”
Drone transportando carga movido por operador – Foto: Bruno Falci / Brasil de Fato
A China quer incrementar parcerias com o Brasil
Enquanto algumas empresas chinesas (como a Anhui Hongjing) já fornecem equipamentos ao mercado brasileiro, outras (como a GEOVIS Zhiyuan) ainda buscam parceiros e oportunidades para entrar no país.
A expansão dos drones chineses representa uma oportunidade para o Brasil. O acesso aos equipamentos estrangeiros pode ser acompanhado por investimentos em empresas, centros de pesquisa e fornecedores nacionais capazes de participar dessa cadeia.
O país possui empresas e centros de pesquisa que desenvolvem aeronaves, softwares e sistemas de agricultura de precisão. O crescimento do mercado pode estimular novas cadeias produtivas, serviços de manutenção, análise de dados, desenvolvimento de sensores e formação de profissionais.
Há também complicações, como a competitividade com a indústria local e a questão regulatória. Quanto mais os drones deixam de ser equipamentos recreativos e passam a transportar cargas, aplicar insumos, monitorar áreas e participar de operações públicas, maior é a necessidade de regras claras sobre segurança, responsabilidade e controle do espaço aéreo.
Fonte: Brasil de Fato
