Coreia do Sul quer retomar controle militar em caso de guerra após redução de exercícios pelos EUA
Decisão de Donald Trump sobre exercícios conjuntos pode acelerar plano de Seul para assumir novamente o comando operacional de suas tropas em conflitos
O presidente da Coreia do Sul quer que o país recupere rapidamente das mãos dos EUA o controle operacional de suas próprias forças armadas em caso de guerra. Lee Jae Myung, que tratou do tema nesta terça-feira (18), também está disposto a promover avanços na aquisição de submarinos nucleares.
O anúncio do governo local tem a ver com uma decisão tomada no domingo (16) pelo governo Donald Trump, que confirmou que instruiu o Pentágono a “reduzir substancialmente” os exercícios militares conjuntos desta semana com o país asiático, conhecido como Ulchi Freedom Shield (UFS, na sigla em inglês).
Os anúncios dos mandatários têm a ver com uma história jamais resolvida entre as Coreias do Sul e do Norte. Desde a Guerra da Coreia, que terminou em 1953 com um armistício, os dois países jamais assinaram um tratado formal de paz. O que significa dizer que, tecnicamente, ambos seguem em guerra.
Em razão desse contexto, os Estados Unidos mantêm tropas na Coreia do Sul. O país asiático exerce o controle de suas próprias forças armadas em tempos de paz desde 1994, mas o controle operacional em tempos de guerra — a autoridade para dirigir as tropas em caso de retomada dos combates — permanece com os EUA. Essa estrutura é liderada pelo comandante do Comando de Forças Combinadas Coreia-EUA, cargo tradicionalmente ocupado por um general quatro estrelas estadunidense.
No final de semana, Trump argumentou que os exercícios militares custam caro e que seria preciso revisar a viabilidade. Ainda segundo o republicano, a Coreia do Norte, liderada por Kim Jong-un, manteria uma excelente relação com o próprio Trump. Por fim, Trump se queixa de que a Coreia do Sul teria ajudado pouco na empreitada contra o Irã.
O argumento financeiro, porém, não pesa para Washington. É na Coreia do Sul que fica a maior base militar estadunidense fora do território nacional, em Pyeongtaek. A estrutura, conhecida como Campo Humphreys, teve um custo de US$ 10,8 bilhões, mas 90% do valor foi pago pelos sul-coreanos. O acordo vale até 2030. A queixa sobre os custos também tinha sido usada como justificativa em 2018, quando Trump, no primeiro mandato, suspendeu exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul.
Na época, o gesto foi interpretado como um aceno diplomático para Kim Jong-un. Ao ser questionado sobre o tema na última segunda-feira (17), Trump mencionou que teria conversado com o líder norte-coreano e que Kim teria respondido à decisão, mas não deu mais detalhes. “Estou tornando tudo muito mais seguro. Kim Jong-un sempre me tratou com muito respeito. Eu o entendo, ele me entende”, disse o republicano a jornalistas.
Apesar de a decisão estremecer, momentaneamente, a relação entre Washington e Seul, ela pode caminhar em um sentido já desejado há tempos pelo presidente sul-coreano, cujo mandato termina em 2030. Internamente, Lee deseja que a meta seja restabelecida para 2028, o que poderá ser discutido durante uma reunião consultiva com os EUA, que será realizada em outubro.
A recuperação do controle operacional em tempos de guerra deveria ter acontecido ainda em 2021, mas vem sendo sucessivamente adiada. Agora, o governo liberal da Coreia do Sul se vê perto das condições ideais para alcançar a retomada. Trump, por seu lado, aplica à Coreia do Sul uma lógica semelhante àquela que vem aplicando a países da Otan: livrar os Estados Unidos das responsabilidades militares, flexibilizando apoios e transferindo o exercício do papel de defesa para os próprios países, que se veem mais pressionados a inflar gastos militares.
A dúvida sobre o futuro diz respeito a quais seriam os benefícios logrados pelos EUA no gesto diplomático a Pyongyang, cuja aproximação militar com a Rússia e a China só avança. Além do mais, o estímulo ao controle majoritário do próprio poder de força pode levar a Coreia do Sul a avançar no debate sobre o desenvolvimento de armas nucleares, que tem aprovação de 80% da população, segundo uma pesquisa do Instituto Asan, publicada em fevereiro.
Fonte: Brasil de Fato
