Ataques da Ucrânia provocam crise de gasolina e filas em postos na Rússia
Escassez de combustível leva governo russo a adotar medidas emergenciais para reforçar o abastecimento em diversas regiões do país
A Rússia enfrenta uma crise de abastecimento de gasolina em diversas regiões em meio à intensificação dos ataques de drones ucranianos à infraestrutura energética. O problema já provoca escassez e filas em postos de combustíveis ao redor do país, levando o governo a elaborar uma série de medidas para contornar a crise.
A escalada da guerra, com o aumento da capacidade dos ataques de drones da Ucrânia, é apontada como a principal causa dos problemas de abastecimento enfrentados pela Rússia. No entanto, a situação também revela características da estrutura econômica do país e como o atual cenário pode ser revertido.
Refinarias operam com redução da produção
Em entrevista ao Brasil de Fato, o analista-chefe do Fundo Nacional de Segurança Energética da Rússia, Igor Ushkov, explicou que a principal causa da crise é a interrupção do funcionamento de diversas refinarias de petróleo.
“O problema é que não sabemos exatamente quais refinarias estão em manutenção, quanto cada uma está produzindo e assim por diante. As estatísticas com números absolutos estão sob sigilo desde 2022. Conhecemos apenas os dados sobre a dinâmica do refino de petróleo, que a agência de estatísticas russa continua publicando. Em abril, o volume de refino caiu pouco mais de 11% em comparação com abril de 2025. Em maio, a redução chegou a cerca de 13,2% em relação a maio de 2025. Portanto, houve uma queda no refino e, naturalmente, é lógico supor que também haja escassez de gasolina”, argumenta.
Segundo o especialista, a gasolina vem sendo mais afetada porque, historicamente, a Rússia produz menos gasolina do que diesel.
“Em um ano normal, sem ataques, cerca de 85% a 90% da gasolina produzida era destinada ao mercado interno, enquanto apenas 10% a 15% era exportada. No verão, essa proporção muda ainda mais em favor do mercado interno, porque o consumo aumenta”, declarou.
Ele explica que, desde os tempos soviéticos, as refinarias russas foram estruturadas para priorizar a produção de diesel, essencial para as Forças Armadas, agricultura, transporte público e serviços municipais.
Verão amplia demanda por combustível
Na prática, a Rússia já produz gasolina próxima ao limite do consumo interno. Durante o verão, a demanda cresce devido ao aumento das atividades agrícolas e das viagens da população, agravando os impactos provocados pelos ataques às refinarias.
Além disso, a dimensão territorial do país dificulta a distribuição dos combustíveis, afetando principalmente regiões do Extremo Oriente e do Sul.
Segundo Igor Ushkov, apesar das dificuldades, ainda existe combustível disponível na maior parte do território.
“Sim, existem filas e alguns postos estão temporariamente sem produto, mas outros continuam abastecendo normalmente. A intenção do governo é justamente garantir uma distribuição mais uniforme”, destacou.
Por esse motivo, várias regiões passaram a limitar a quantidade de combustível vendida por abastecimento, buscando evitar o desabastecimento completo em determinadas localidades.
Governo russo amplia importações
Ao comentar a situação pela primeira vez na última semana, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, reconheceu que os ataques às refinarias afetaram o abastecimento, mas afirmou que a situação permanece sob controle.
“Em relação aos ataques à infraestrutura crítica em geral, e à infraestrutura energética em particular, é claro que esses ataques às nossas instalações criam problemas, isso é óbvio. Atualmente, estamos enfrentando uma certa escassez, mas não é crítica”, afirmou.
Segundo Putin, a prioridade é ampliar os sistemas de defesa aérea para proteger refinarias e outras instalações estratégicas.
Entre as medidas adotadas pelo governo estão:
- suspensão das exportações de gasolina;
- redução a zero da tarifa de importação do combustível;
- ampliação das compras de gasolina de Belarus, Cazaquistão e, possivelmente, da Índia.
O vice-primeiro-ministro Alexander Novak determinou que as companhias petrolíferas reforcem o abastecimento das regiões com maior demanda.
Já o Banco Central da Rússia classificou o cenário como um “choque temporário de oferta”.
Corrida aos postos agrava escassez
Outro fator que intensifica a crise é a corrida da população aos postos de combustíveis.
Segundo Ushkov, muitos motoristas passaram a abastecer completamente os tanques e até encher recipientes extras por receio da falta de gasolina.
“Antes, era comum abastecer apenas meio tanque; agora, muitos procuram encher completamente o tanque e até abastecer galões de reserva. Essa procura excessiva agrava ainda mais os problemas de abastecimento, fazendo com que o tempo de espera nos postos aumente.”
O especialista afirma ainda que os maiores aumentos de preços foram registrados nos postos independentes, enquanto grandes redes ligadas às empresas petrolíferas mantiveram valores praticamente estáveis.
Expectativa é de normalização nos próximos meses
Para Igor Ushkov, a tendência é que a situação seja estabilizada com a combinação das medidas adotadas pelo governo e a redução natural da demanda após o verão.
“Todas essas medidas deverão estabilizar o mercado de combustíveis nos próximos meses. A partir de setembro o consumo de gasolina normalmente diminui. Assim, provavelmente no fim de setembro ou em outubro o mercado deverá voltar ao equilíbrio, quando a produção doméstica será suficiente para atender ao consumo interno e as importações deixarão de ser necessárias”, afirmou.
Segundo o analista, embora a importação represente um custo adicional para um orçamento que já enfrenta déficit, o governo considera a medida necessária para evitar uma alta mais expressiva nos preços dos combustíveis em todo o país.
Fonte: Brasil de Fato

