Hondurasgate: Vazamento de áudios expõe pacto Trump e JOH
Operação internacional envolveria Israel e Milei para criar polo de extrema direita e desestabilizar a esquerda na América Latina.
Um recente vazamento de áudios indica que o indulto concedido pelo presidente estadunidense Donald Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por narcotráfico, teria sido parte de uma operação internacional conduzida por Estados Unidos e Israel para transformar Honduras em um centro de operações da extrema direita na região.
Divulgadas pelos sites Hondurasgate e Diario Red, as gravações foram extraídas do WhatsApp, Signal e Telegram, e estão datadas entre janeiro e abril de 2026. O vazamento ocorre seis meses após a inédita intervenção do governo dos Estados Unidos nas eleições presidenciais de Honduras, realizada no final do ano passado.
Os áudios envolvem diversas figuras do atual governo do Partido Nacional em Honduras, incluindo o presidente Nasry Asfura, a vice-presidente María Antonieta Mejía, o líder do Congresso Tomás Zambrano e a conselheira eleitoral Cosette López-Osorio, além do próprio Juan Orlando Hernández.
Hernández, de 57 anos, havia sido condenado em 2024 a 45 anos de prisão após ser considerado culpado por crimes relacionados ao narcotráfico e ao tráfico de armas. Na sentença, os promotores o descreveram como “um dos criminosos mais culpados já processados nos Estados Unidos”.
Segundo declarações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), Hernández usou seu poder presidencial para proteger e enriquecer traficantes, facilitando o tráfico de mais de 400 toneladas de cocaína durante seu mandato.
Apesar da gravidade da condenação, durante as eleições de Honduras no final do ano passado, Juan Orlando Hernández recebeu um indulto total de Trump. O anúncio incluiu ainda um apoio explícito a Nasry Asfura, candidato do Partido Nacional, que acabou sendo eleito em um pleito polêmico e em meio a acusações de fraude.
Nas mensagens vazadas, Hernández menciona que o apoio financeiro para sua libertação veio de “uma junta de rabinos e de pessoas que apoiavam Israel”. Em uma mensagem de voz datada de 20 de janeiro, o ex-presidente afirma:
“É preciso abrir um pouco os olhos, a situação global não está tão boa. O primeiro-ministro de Israel vai nos dar apoio. Estamos muito agradecidos a ele. Eles tiveram muito a ver, na verdade tiveram tudo a ver com a minha saída e negociação”.
Segundo as informações divulgadas, como forma de “pagar o indulto”, o governo do Partido Nacional em Honduras teria se comprometido a entregar aos Estados Unidos a expansão das Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico (Zedes) em Roatán e Comayagua — áreas com marcos jurídicos excepcionais favoráveis a empresas estrangeiras —, permitir a construção de uma nova base militar no país, criar um canal interoceânico sob responsabilidade da General Electric, promulgar uma lei de Inteligência Artificial adaptada às empresas americanas e construir um Centro de Confinamento do Terrorismo em Tegucigalpa, inspirado em modelos usados em El Salvador.
Em um áudio datado de 10 de fevereiro, o presidente Nasry Asfura comunica a Hernández os avanços dessas negociações:
“Presidente, que prazer saudá-lo. Já tivemos uma sessão privada com os investidores e eles estão muito positivos quanto à expansão de Roatán e da Zede, e em Comayagua, também para Palmerola. Vamos mover outra Palmerola, especificamente em Roatán, que está muito próspera. Uma base, isso já negociamos. Também o interoceânico. Esse projeto vamos entregar à…vamos entregar à General Electric”.
Um plano para desestabilizar a esquerda
O vazamento de áudios também revela a existência de uma operação — que incluiria diversos setores da direita continental — destinada a criar um laboratório de desinformação com o objetivo de desestabilizar politicamente governos de esquerda. Segundo os áudios, há menção explícita à intenção de desestabilizar os governos de Claudia Sheinbaum, no México, e de interferir nas próximas eleições da Colômbia, por meio da fabricação e difusão massiva de notícias falsas.
“Vamos montar uma célula aqui, nos Estados Unidos, para que não nos rastreiem em Honduras. Vai ser como um site de notícias latino-americanas”, ouve-se em uma conversa de 30 de janeiro de 2026 entre Juan Orlando Hernández e o atual presidente hondurenho, Nasry “Papi” Asfura.
“Estive em uma chamada com o presidente Javier Milei e foi bem-sucedida. Muito, muito, muito boa. E acredito que, neste ponto, podemos fazer grandes coisas para toda a América Latina. Estão chegando alguns dossiês contra o México, dossiês contra a Colômbia e, o mais importante, contra Honduras. Nesse caso, contra a família Zelaya.”
Segundo os detalhes, a operação seria financiada com a má gestão de fundos públicos hondurenhos, incluindo recursos do Instituto Nacional de Esporte (Insep), e com contribuições de governos estrangeiros. Em outro áudio, também de 30 de janeiro, Juan Orlando Hernández explicaria à vice-presidente María Antonieta Mejía que o presidente argentino Javier Milei teria prometido entregar 350 mil dólares para a operação.
“É necessário que eu tenha essa liquidez porque vamos montar um escritório aqui, com o apoio de alguns republicanos, para poder atacar e extirpar o câncer da esquerda de Honduras e de toda a América Latina”, ouve-se Hernández dizendo à atual vice-presidente María Antonieta Mejía.
“Contava ao presidente Asfura que conseguimos falar com Javier Milei, e ele está apoiando com 350 mil dólares também. Outro grande amigo nosso do México está apoiando, já para o tema dos mexicanos. Estamos bastante prontos”, acrescenta.
Como os áudios foram verificados
O site Hondurasgate submeteu os arquivos ao Phonexia Voice Inspector, ferramenta forense desenvolvida pela empresa tcheca Phonexia e utilizada em tribunais europeus e por agências de inteligência em mais de 60 países. A necessidade do protocolo parte de uma mudança técnica concreta: em 2026, clonar uma voz com inteligência artificial leva menos de três minutos em qualquer navegador, o que torna a verificação forense obrigatória antes de qualquer publicação, segundo o site.
O motor analisa mais de 25 indicadores acústicos, biométricos e prosódicos — entre eles jitter, shimmer, relação harmônico-ruído, formantes vocais e eventos respiratórios. Vozes humanas apresentam envolvente de amplitude irregular e energia residual em alta frequência. Clones gerados por síntese artificial produzem harmônicos excessivamente limpos, ausência de ruído de fundo natural e periodicidade mecânica detectável no espectrograma.
O protocolo tem nove etapas: captura por canal cifrado, decodificação para formato PCM linear, redução para 8 kHz mono, recodificação em formato OGG, geração de hash SHA-256 para garantia de integridade e extração dos indicadores em seis eixos forenses. O resultado traz dois valores: nível de confiança da análise e probabilidade de síntese por inteligência artificial. Amostras com probabilidade abaixo de 10% de origem sintética e confiança acima de 80% são classificadas como voz humana. Os 37 áudios analisados e o dossiê técnico completo estão disponíveis para consulta pública no site Hondurasgate.
Fonte: Brasil de Fato
