ONU alerta que metade das crianças não sabe denunciar ciberbullying
Relatório aponta avanço do bullying virtual e alerta para impactos da inteligência artificial nos ataques contra crianças
A Representante Especial da ONU sobre Violência contra Crianças, Dra. Najat Maalla M’jid, alertou, nesta terça (10/03), em Genebra, que crianças seguem pagando o preço mais alto em um cenário global cada vez mais hostil.
Ao apresentar seu relatório anual ao Conselho de Direitos Humanos, ela destacou o avanço do ciberbullying, ou bullying virtual, e o impacto crescente da inteligência artificial (IA), que torna ataques contra crianças mais rápidos, ocultos e amplificados.
A Dra. Maalla M’jid pediu ação conjunta de governos, indústria e sociedade para garantir proteção digital, fortalecer canais para denúncias e criar ambientes on-line seguros para as crianças.
“Hoje, nos reunimos mais uma vez em um contexto desafiador, no qual as crianças estão pagando o preço mais alto. Sua proteção e bem-estar são prejudicados pelo aumento dos conflitos, deslocamentos, pobreza, violência e múltiplas privações”, afirmou a Dra. Najat Maalla M’jid, Representante Especial do Secretário-Geral da ONU sobre Violência contra Crianças, ao abrir um diálogo interativo sobre seu relatório anual no Conselho de Direitos Humanos, nesta terça-feira (10/03) em Genebra.
O relatório destaca tendências alarmantes no ciberbullying, ou bullying virtual, uma das principais preocupações expressas pelas próprias crianças. Uma pesquisa recente realizada pelo Escritório da Representante Especial com mais de 30 mil crianças em todas as regiões do mundo revelou que 66 % consideram que o ciberbullying aumentou e que 1 em cada 2 crianças não sabe onde e como denunciar e obter apoio.
Ciberbullying, explica o UNICEF, é o bullying realizado por meio das tecnologias digitais. Pode ocorrer nas mídias sociais, plataformas de mensagens, plataformas de jogos e celulares. É o comportamento repetido, com intuito de assustar, enfurecer ou envergonhar aqueles que são vítimas. Exemplos incluem:
- espalhar mentiras ou compartilhar fotos constrangedoras de alguém nas mídias sociais;
- enviar mensagens ou ameaças que humilham pelas plataformas de mensagens;
- se passar por outra pessoa e enviar mensagens maldosas aos outros em seu nome.
A IA está transformando fundamentalmente a ameaça
O rápido avanço e a acessibilidade da IA generativa estão remodelando o ciberbullying, tornando-o mais rápido, mais direcionado, mais difícil de detectar e capaz de se espalhar por várias plataformas em grande escala. Isso possibilita deepfakes, alvos automatizados e a manipulação de crianças por meio de chatbots e outras ferramentas nas quais elas muitas vezes confiam demais e não conseguem distinguir da interação humana real. Fotos e vídeos deepfake gerados por IA, inclusive por meio de aplicativos de “nudificação”, são cada vez mais usados para humilhar, ameaçar e explorar crianças on-line.
O relatório alerta que as crianças não denunciam facilmente o ciberbullying porque enfrentam estigma, porque não sabem onde denunciar, temem ser rejeitadas por colegas ou julgadas pelos adultos.
O impacto do ciberbullying pode ser imediato e devastador, causando sofrimento psicológico e danos duradouros à reputação em segundos. Nos casos mais trágicos, pode levar as crianças a tirarem suas próprias vidas.

Legenda: A Representante Especial do Secretário-Geral da ONU sobre a Violência contra Crianças, Dra. Najat Maalla M’jid, faz uma apresentação em reunião do Conselho de Segurança sobre crianças e conflitos armados, em 13 de fevereiro de 2023.
Foto: © ONU/Evan Schneider.
Participação de todas as pessoas e todos os setores da sociedade é essencial
A Dra. Maalla M’jid enfatizou a necessidade de envolver todos os atores do ecossistema de proteção infantil online, incluindo governos, indústria, educadores, famílias, crianças e jovens.
Essa é a única maneira de projetar uma estrutura multissetorial com o objetivo de proteger as crianças contra danos online, ao mesmo tempo em que possibilita uma participação virtual segura. Ela destacou a necessidade urgente de garantir que a segurança e a privacidade das crianças sejam incorporadas em todas as plataformas digitais e na cadeia de valor da IA.
Em seu relatório anual ao Conselho de Direitos Humanos, a Dra. Maalla M’jid destacou o importante papel das crianças e dos jovens, que devem ser capacitados com pensamento crítico e cidadania digital e envolvidos nas respostas, conforme expresso por uma criança consultada por seu escritório:
“Os espaços digitais não devem se tornar locais onde os danos são relatados, mas nunca resolvidos. Devem ser locais onde a ajuda chega de forma rápida, segura e humana. Não criem o futuro digital para as crianças. Façam isso conosco.”
Fonte: ONU – Brasil
